Giorgio Renan Ernlund Metynoski
*19.11.1991    +27.05.2002

O menor que tirou a vida do meu filho estava sob acompanhamento do Conselho Tutelar desde os 6 anos de idade, por ter apresentado problemas comportamentais em várias escolas onde estudou, tendo em sua pasta do Conselho laudos de psiquiatras atestando que ele era portador de personalidade sociopata.

O Conselho Tutelar colocou esse menor no Colégio Estadual Julia Wanderley - Curitiba, em 2001.  Meu filho em 2001 estava na quarta série à tarde e o menor na quinta pela manhã, então naquele ano eles não tiveram contato. No decorrer do ano de 2001, esse menor foi o causador de diversos problemas na escola, por este motivo Conselho dos Professores resolveu que ele não deveria ser matriculado em 2002, mas por motivos desconhecidos, a então Diretora da escola não fez a comunicação ao Conselho Tutelar. 

Em 2002, uma nova Diretora assumiu o cargo e como já conhecia o histórico do menor, vendo que ele ainda estava na escola,  convocou um representante  do Conselho Tutelar e o responsável pelo menor para solicitar que o mesmo fosse retirado por representar, no seu entender, um risco para os outros alunos. Isso ocorreu em fevereiro, no início do ano letivo. As aulas começaram e o caso permaneceu em solução até março, quando a Diretora sugeriu outras escolas e  empenhou-se para que o menino fosse retirado do convívio com os alunos. Finalmente, o Conselho Tutelar decidiu pela permanência, obrigando a escola a aceitá-lo.

Nesse ano meu filho que sempre foi um excelente aluno, tendo sido inclusive eleito o melhor aluno da escola, passou para a quinta série. Ele tinha 10 anos de idade. Com a decisão do Conselho, o menino/adolescente assistido, então com 14 anos, passou a ter aulas na mesma sala. Isso o colocou em convívio diário com crianças bem mais novas, na faixa etária de 10 anos. Ele fez amizade com meu filho, vindo umas três vezes na minha casa a partir de abril. A princípio estranhei, pois ele era bem mais alto e parecia bem mais velho, mas ele afirmou ter apenas 12 anos, eu acreditei pois na minha família todos são altos, achei que era o caso e não havia até então motivo para duvidar. Em minha casa eles nunca ficaram sozinhos, pois estavam sempre presentes minha empregada e meu outro filho, que na época estava com 19 anos e em um fim de semana que ele veio, eu estava em casa.

Em abril aconteceram alguns problemas com esse menor na escola, ele tinha um histórico de fazer amizade com crianças menores e depois o mesmo passava a torturá-las de várias formas. Ele costumava fazer desenhos em forma de história em quadrinhos, um verdadeiro fluxograma com cenas de como ele iria prender, torturar, matar e consumir com os corpos de seus desafetos pelas paredes dos banheiros e nos cadernos na escola, os personagens eram sempre colegas e professores.  No final do mês abril de 2002, usando o verso das páginas de uma prova que estava sendo aplicada, ele desenhou a Diretora e a Coordenadora da escola sendo mortas. No desenho o corpo das duas estava preso por pregos em uma parede e marcado para corte, como em imagens que se vê nos açougues onde mostram os cortes de carne de gado. Neste desenho além de ter os instrumentos necessários para cortar e serrar, na volta dos quadrinhos haviam várias imagens de uma espingarda disparando, em vez de balas, órgãos sexuais masculinos, arrematado por um deles, enorme no canto do desenho.

Chamada pela professora que ficou alarmada pelo fato, a Diretora constatou que ele não assinara a prova e solicitou que ele o fizesse. Em seguida, providenciou xerox da lista de chamada do dia e de todas as provas. Com isso em mãos, convocou o Conselho Tutelar e o pai do adolescente. Durante a reunião, a Diretora tomou conhecimento que a espingarda era real e estava na casa do menor, pois pertencia a seu pai, ela o aconselhou a não deixar tal arma em casa. O pai, porém, argumentou que iria consumir com a mesma. Foram relatados os casos de agressões e exibidas as cópias em xerox feitas e, novamente, o Conselho Tutelar achou por bem manter o adolescente assistido na escola.

Em 27 de maio de 2002, meu filho me telefonou no trabalho e me informou que havia sido convidado para ir brincar na casa do menor, que morava em um bairro próximo ao meu, pedindo permissão para ir. Perguntei como ele iria até lá, ele me disse que o pai do menino viria buscá-lo. Eu então falei com a minha empregada que ele só poderia ir se o pai do menino realmente viesse buscá-lo e o trouxesse de volta.Por volta das 13:30, minha empregada me ligou dizendo que o pai do menor tinha ido buscar meu filho e ela recomendara que ele o trouxesse de volta às 16 horas.

Perto das 16 horas um bombeiro de nome Assis, ligou em meu trabalho e, sem nenhum preâmbulo, me disse: Você é mãe do Giorgio Renan? Estou ligando para avisar que ele morreu!  Chocante! De início achei tratar-se de um trote, uma brincadeira de mau gosto, face à crueza da informação. Minha gerente, vendo o quanto eu estava transtornada e também não querendo acreditar na notícia, tirou o telefone de minha mão e conversou com o bombeiro. Ele confirmou que era verdade, que Giorgio tinha recebido um tiro e morrido. A notícia correu a empresa instantaneamente e o trabalho parou. Pessoas se prontificaram a me acompanhar ao local e a avisar minha família.

Chegamos à casa do menor, onde havia uma grande confusão de veículos policiais, IML e representantes da imprensa, além de vários curiosos. Amigos e familiares que já estavam no local impediram que eu saísse do carro para não ver a cena e ficar em estado ainda pior do que já estava. O abalo foi tal que tiveram de me levar a um hospital para ser socorrida. Pessoas da minha família acompanharam todos os procedimentos, inclusive a liberação do corpo de meu filho junto ao IML e preparativos para o funeral.

Por volta das 17:30 horas uma pessoa ligada à doação de órgãos me ligou e pediu  doação de órgãos, eu disse que ela poderia vir que eu assinaria a autorização. As 18:00 horas eu assinei a autorização. Seis meses depois eu soube que a doação não foi feita, pois não havia nenhuma gota de sangue no corpo do meu filho para fazer os exames necessários.

É chocante eu sei, meu filho teve o 2º, 3º e 4º arcos costais esquerdos quebrados (são os três arcos por cima do pulmão), o pulmão esquerdo estourado, um hemotórax (é um derrame e presença de sangue na cavidade toraxica pleural geralmente provocadas por feridas penetrantes) de 500 mml no lado esquerdo e um igual de 150 mml no lado direito do tórax, uma ferida causada por um objeto perfuro cortante na parte posterior (costas) do tórax esquerdo e mais um tiro de espingarda 16 mm (o menor tinha perfeita habilidade com esta arma - segundo laudo da DA) dado a queima roupa no pescoço (o qual deixou esfumaçamento e tatuagem de pólvora na região do queixo e pescoço, o que prova que o tiro foi dado a queima roupa, o mesmo deixou a traquéia, vasos cervicais destruídos e expostos). E ainda foram encontrados objetos dentro do tórax (pedaços de metal, papelão, plástico e outros não identificados) e 10 projéteis da arma foram retirados de seu corpo. No atestado de óbito consta que meu filho morreu devido hemorragia aguda provocada por uma ferida perfuro cortante, mais um tiro no pescoço. Ou seja, traduzindo, meu filho apanhou, foi esfaqueado pelas costas e ainda levou um tiro que praticamente o decapitou. Depois de ter feito isso o menor assassino ligou calmamente para os bombeiros e contou o que tinha feito. Eu ouvi a gravação e acredite ele estava na boa! Contou ao bombeiro como se estivesse contando um fato corriqueiro! Obs.: 1. A arma era uma espingarda antiga que estava, segundo o pai do adolescente desmontada em três partes, a mesma para ser usada precisava ser unida e carregada e para atirar teria de ser puxado o "cão" e o "gatilho". 2. Tudo que relato sobre o estado do corpo do meu filho consta em laudo da autópsia e atestado de óbito a disposição de quem quiser ler.
 

Durante o velório, a Diretora da escola se aproximou de mim para me confortar e foi nesta hora que ela sentou comigo e disse: eu tenho que te contar algo e despejou em cima de mim toda esta história do menor, o que havia ocorrido na escola, me dizendo que sentia muito o que aconteceu e que se soubesse que o adolescente estava frequentando minha casa teria me avisado do perigo, me contou que o pai dele dizia que o mesmo "só servia para cavar buracos" e que os avós diziam que ele era o "demônio", inclusive na data em abril quando o pai foi chamado a avó atendeu o telefone e disse para a diretora: - " O que este desgraçado fez agora". A diretora disse que estaria a minha disposição para testemunhar sobre isso tudo e para tudo o que eu precisasse e cumpriu a promessa.

Vocês devem estar se perguntado o que foi que aconteceu com o menor que fez tudo isso!? Eu respondo: ficou três dias preso na DA, depois foi solto e colocado em outra escola com crianças inocentes, após um ano de luta da minha parte, sem ter direito a nada, pois você, mesmo sendo mãe ou pai de vitima não tem acesso ao processo do menor que matou seu filho (corre em segredo de justiça), fui ameaçada de processo por avisar a outra escola do perigo que este menor representava, o juiz me ameaçou de prisão por desacato por eu cobrar uma sentença, nesta altura eu fiz uma queixa na ouvidoria geral do estado contra o juiz e o promotor e ele foi "condenado" apenas a uma medida sócio educativa de se tratar com um psicólogo em liberdade pelo trauma de ter matado meu filho! Quando ele fez 18 anos ganhou ficha limpinha! Pois tudo que um adolescente faz, seja lá o que for some de sua ficha ao ficar maior! Um verdadeiro anjo! Hoje este assassino, que ficou impune anda sossegado em liberdade com ficha limpa e inclusive fazendo concursos para entrar na policia, cope e outros afins. 

O pai do menor, após outra luta titânica minha pegou apenas serviços comunitários e mesmo assim ainda teve a capacidade de pedir redução do tempo desta medida, o juiz mandou uma intimação para que eu fosse lá dizer o que achava sobre o pedido e é obvio que eu não concordei. Hoje posa de "gente boa". A meu ver esta sentença de serviço comunitário é injusta porque uma vez que ele sabia do perfil do filho, foi avisado várias vezes, inclusive da arma e mesmo assim não fez nada, ele assumiu o risco de acontecer o que houve e isso é homicídio doloso e não culposo, como foi considerado.

Os únicos sentenciados foram meu filho que pegou perpétua no cemitério e eu e minha família condenada ao sofrimento da eterna saudade.

Se eu conto isso é para que as pessoas acordem, antes que seja tarde! Fiquem de olho em quem o Conselho Tutelar coloca na escola de seus filhos! Eu não quero que outra mãe passe pelo que eu passei e é de boca fechada que eu vou conseguir isso!

Vamos lutar para que a Maioridade Penal seja abaixada já! Eu penso que a partir dos 12 anos completos o menor deve pagar pela gravidade dos crimes praticados e não por uma idade especifica e que se ele voltar ao crime deve perder o direito da ficha limpa aos 18 anos. E ainda que deve existir um dispositivo que previna que os menores que além de praticar um crime, tem algum grau de psicopatia fiquem soltos.

E já digo, aos demagogos e defensores dos DIMENOR, que antes de "me malhar", vão sentir "na pele" o que eu senti e sinto.

 

Elizabeth Metynoski – mãe do Giorgio Renan

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