Danilo Masahiko Kurisaki
*31.10.1977    +23.03.2001

Natureza, ela é magnífica!  O dia amanhece, com chuva ou sem chuva. Aos primeiros raios solares iluminam o horizonte. Os pássaros saltitam com os gorjeios desejando um bom dia. As horas passam, no entardecer com o sol se pondo no horizonte com o mesmo colorido do amanhecer, o prenúncio da noite, as estrelas brilham no céu e a lua com as suas formas variadas, conforme a sua fase. Que natureza!!!

 

E como a natureza, o homem nasce, cresce, atravessa toda sua etapa de desenvolvimento, transportando a realização do seu sonho quando adulto se tornar. Casa-se e sonha em construir uma família. Inicia-se a outra etapa, o nascimento do seu 1º filho, os preparativos para a chegada do seu herdeiro, amigo e companheiro da sua vida. Chega o 2º filho e o 3º filho. A alegria do crescimento da família é incalculável. O choro, a gritaria, as vozes das crianças e dos pais se misturam numa sinfonia natural. A noite chega e todos os anjinhos dormem trazendo aquele silêncio, mas logo ao amanhecer tudo começa, com certeza, esta é a VIDA. A vida tem que ser desta forma rodeada de corre-corre. É uma alegria sem fim, vendo as carinhas inocentes, cada um com seu sonho a realizar quando adulto.

 

A minha vida, não foi diferente. Com o nascimento dos filhos, a família crescendo, acompanhando o crescimento de cada um, enfrentando as diferenças individuais. Labutamos muito para poder dar uma boa educação, uma boa formação, para serem úteis à sociedade e ao mundo. Esta deveria ser a realidade natural, porém a vida é uma caixa de surpresas. É uma caixa que somente ao receber e abrir, nós nos deparamos com a realidade reservada para cada um de nós. Justamente por causa dessa caixa de surpresa que nos foi entregue, que estou aqui relatando. Por que não poderia ser natural e comum? Tenho três filhos, dois comigo e um com Deus, este relato será sobre este que nos deixou precocemente.

 

Nascimento

 

Quando fiquei sabendo da 2ª gravidez. Fiquei feliz como se fosse o 1º, pois a família estava crescendo. Tive ameaça de aborto. Quinze dias de repouso absoluto seguido de um mês de licença saúde. Neste período me afastei das minhas atividades por um mês, mas por uma causa nobre, preservar a vida do meu filho. E assim, os dias foram passando. Dia 31/10/1977, às 21:00 horas, chegou a hora tão esperada. Nasceu, Danilo Masahiko, 50cm, com 3,150kg.

 

Infância – Escolaridade - Adolescência -  Personalidade

 

Seu primeiro pediatra: Dr. Jorge Nassu e aos 45 dias de vida teve o acompanhamento médico com o Dr. Oswaldo Cipresso, seu padrinho. Passados alguns meses, chorava muito durante a madrugada. Sempre era após a meia noite, e só parava de chorar e dormia tranqüilamente se deitasse abraçado no meu peito, assim foram meses até completar os dois anos. Nesse período, fui à procura da razão do choro, pois a saúde estava perfeita, mas o choro...não era normal, porém a solução foi nula, somente ao completar dois anos passou essa crise de choro, passando a dormir normalmente e muito bem. Até hoje não sei o porquê de tanto choro.

 

Aos três anos visitou o seu 1º dentista, Dr. Kazuo Chikami, que o atendeu até os 23 anos.

Quando completou seus três anos iniciou a sua jornada escolar. Primeiro dia de escola, maternal II, como toda criança, que choro!!!  Aos seis anos incompletos, Danilo iniciou o seu pré - primário, numa outra escola, com duas excelentes profissionais da educação, profª Marilei e profª Lurdinha. No ano seguinte, iniciou a 1ª série do 1º grau concluindo o ensino de primeiro grau, em 1991, na escola pública. O segundo grau, a primeira série na escola pública e a partir de segunda série foi para um colégio particular.

 

Com seis anos já freqüentava aulas de Língua Japonesa, de Natação e Karatê. Sempre gostou muito de andar de bicicleta, muitas vezes saía às escondidas para se aventurar com os amigos. Gostava de jogar basebol (seu uniforme era o de nº 22). Apesar de não jogar futebol e nem basquete tinha seu time favorito para ambos. Futebol: torcia para o São Paulo e  no Basquete: torcia para Chicago Bulls, sendo que o jogador nº 23 o Michel Jordan era seu favorito (tive um sonho com o Danilo após sua partida, onde me foi revelada esta sua preferência, depois lendo os cadernos de anotações dele tive esta confirmação).

 

O Danilo sempre foi determinado, com forte personalidade, calmo e de falar pouco, porém muito observador e nada o fazia mudar de idéia quando tomava uma decisão. Não aceitava que alguém o chamasse de “japonesinho”, sempre que o chamavam assim, ele respondia: “meu nome não é japonesinho, eu me chamo Danilo”. O que mais pesou na sua decisão de ser médico, foram as aulas de Ciências Físicas e Biológicas, na sexta série com o Prof. Nelson, aula sobre o corpo humano. Neste dia ele chegou radiante, como tivesse encontrado um tesouro, dizendo: - “Mãe, vou ser médico, pois, hoje, tive aula do Prof. Nelson e decidi, vou ser médico!”. Desde então, nada fez com que mudasse de idéia. Precisou fazer três anos o cursinho, pois nós não tínhamos condições de fazê-lo cursar uma faculdade de medicina particular, com mãe funcionária pública e o pai funcionário de uma empresa mista, que tinham para educar três filhos, não era nada confortável financeiramente. Mas, vendo aquela vontade do Danilo, de realizar seus sonhos, “ser médico”, decidimos renunciar de muitas coisas, cortando os nossos gastos e fazer com que ele prestasse o vestibular em uma faculdade particular, a UMC - Universidade de Mogi das Cruzes, Curso de Medicina, em 1999.

 

Quando foi classificado, sua alegria era tal, que transparecia em seu semblante o início do seu sonho, um passo dado. Aula inaugural, como todo primeiro anista sofreu trote dos veteranos, mas ele como sempre foi um menino pacífico, cumpriu o seu período de “bicho” onde foi batizado de “ BOI”, pois ele tinha 1,80 de estatura e pesava seus 90 kg. A partir daí ele era conhecido e chamado pelos amigos de “BOI”, eu soube disse ao lhe telefonar, pois os amigos diziam: Quem? O “BOI”? E assim foi o “BOI”. Como o curso de medicina é integral ele ficava numa república de segunda a sexta, pois viajar diariamente de São Paulo a Mogi das Cruzes seria muito cansativo. Voltava na sexta, por volta das 18:30 horas e saía na segunda às 6:30 horas aproximadamente. Esta era a vida dele, mas sua realização era tanta que nada para ele era cansativo. Quando chegava já ia me contando sobre a matéria vista durante a semana. A realização do Danilo era a nossa realização. Em setembro de 2000, Danilo me disse: - “Mãe, estou pensando ir ao Japão trabalhar, durante as minhas férias de dezembro, janeiro e fevereiro, trabalho temporário, o que a mãe acha? Porque ficarei de férias durante quase três meses e aqui não consigo trabalho e sendo no Japão, posso trabalhar, ganhar um pouco e além do mais conhecer o país do pai e rever os tios e primos (os tios e primos trabalhavam nesta época, como dekasseguis)”. Danilo me pegou de surpresa, mas realmente seria uma oportunidade para conhecer outro país e ainda sendo a terra natal dos avós e do pai... Concordei, apesar de coração apertado, pois sem conhecer os costumes e como não dominava a língua japonesa, pensei na dificuldade que o Danilo passaria, mas seria uma experiência nova que com certeza enriqueceria muito a sua vida. Estudou bastante para se livrar dos exames finais de dezembro e correu atrás da documentação.

 

Viagem

 

A viagem estava marcada para 07 de dezembro de 2000. Corremos nos finais de semana à busca de roupas de inverno com muitas dificuldades, pois aqui estávamos em plena primavera e no Japão o mês de dezembro é de frio intenso, como ficaria? A preocupação era grande, mas conseguimos resolver da melhor forma possível, pois compra após sua chegada seria uma grande despesa para quem está chegando para trabalhar. À véspera da viagem, arrumou suas malas com a Roberta (namorada dele) ajudando, minha ajuda foi dispensada nos finalmentes (confesso, fiquei um tanto enciumada), afinal mãe é mãe, não é?

 

Chegou o dia, fomos ao aeroporto levá-lo. Fez check-in. Chegaram os amigos e como a despedida final é sempre mais difícil, deixamos o Danilo com a Rô (carinhosamente chamada assim por ele) e os seus amigos, fomos embora mais cedo, é claro, que não antes de fazer todas as recomendações que uma mãe costuma fazer. Tão logo chegou ao Japão nos ligou contando como foi à viagem e como estava o clima. Nos finais de semana, os nossos amigos Pedro, Luiza, Valquiria e Tim (que já estavam no Japão trabalhando como dekasseguis) o buscavam e levavam para casa deles, assim, Danilo passava os finais de semana com amigos, diminuindo assim a saudade da gente. Todos os finais de semana Danilo me ligava. Fez muita amizade com o pessoal da firma onde ele trabalhava. Ele era muito querido por todos. O Natal e o Ano Novo de 2000 para 2001, passamos apenas com um “ALÔ”, apesar da saudade, para nós o que importava era saber que ele estava bem. Quando ele me telefonou no Ano Novo, senti sua voz triste e indaguei: “...e como está, aconteceu alguma coisa?” Ele me disse: - “Não mãe, está tudo bem, estou chateado pois queria tanto encontrar com os tios e primos e não consegui nem vou conseguir nestes feriados de “oshogatsu” - Ano Novo, pois eles estão viajando”. Não faltará oportunidade, disse para reanimá-lo. O tempo passou, foram apenas três meses, mas para nós, pareceu uma eternidade.

 

Retorno

 

A chegada estava prevista para o dia 28 de fevereiro de 2001, mas ele não conseguiu um vôo, retornou somente no dia 1º de março. Chegou super preocupado, por estar quase um mês ausente das aulas na faculdade, pois neste ano as aulas iniciaram na segunda semana de fevereiro. Percebi que estava com a fisionomia cansada, mas logo o sorriso fez o Danilo ser o mesmo, pois estava em sua casa, revendo e abraçando a sua amada, Rô. Estava muito feliz, pois havia feito muita amizade e a receptividade dos nossos amigos que o receberam como filho dando todo apoio, fez diminuir a saudade da gente. A única lamúria foi de não ter encontrado com os tios e primos, pois me disse: - “... pôxa, mãe, fui até o Japão e não encontrei com eles, sempre alguma coisa impedia, uma hora era o tempo e outra era porque eles não tinham tempo por estarem trabalhando durante o fim de semana. - Mãe, fiquei quase três meses e não restou nenhum dia?” disse ele. Falamos a respeito das dificuldades e ele pareceu se conformar desse desencontro.  No dia, 05 de março, com o reinicio das aulas começou correria para recuperar as aulas perdidas e com as provas se aproximando, Danilo ficou muito ocupado, os estudos tomavam a maior parte de seu tempo, tornando curto o tempo para conversarmos em detalhes.

 

Quando revelamos as fotos, ele nos mostrou contando as dificuldades passadas e as amizades feitas. O outro rolo de filme ele deixou para revelar, pois faltavam fotos para serem batidas (revelado somente após a sua partida). Contou -me sobre uma senhora boliviana chamada Sra. Hiroshima, que o tratou muitíssimo bem. Ela dizia: - “Danilo, você é como se fosse meu filho, quando eu voltar, pretendo voltar ainda este ano em dezembro, como terei que fazer escala no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, lhe aviso e vamos nos encontrar. ” Prometi ao Danilo que neste dia iríamos receber no aeroporto a Sra. Hiroshima( este dia não chegou). E também, selamos a promessa de que nas próximas férias de dezembro iríamos ao Japão e com certeza disse ao Danilo de que desta vez não passaria necessidade, pois iremos todos juntos, assim ele poderia conhecer melhor a terra natal de seu pai, a cidade de Nagasaki e outras também. Ficou radiante, prometendo que se esforçaria muito para não ficar para os exames e muito menos carregar as matérias pendentes para outro semestre (tudo isso ficou na promessa).

 

Dia 16/03/01, como sempre chegou à tarde da faculdade. No dia seguinte, sábado, convidei - o para irmos ao sacolão e ele de prontidão disse: - “Oba, vou comer pastéis, pois faz mais de três meses que não como pastéis, pastel delicioso é só no Brasil que se encontra.” E fomos... Comeu dois pastéis. No domingo, dia 18/03/01, eu tinha um compromisso, Karaokê, participaria neste dia de um concurso de Karaokê. Danilo se prontificou em me levar e disse radiante: “.. hoje pela primeira vez, vou assistir a sua participação”. Fiquei feliz, pois realmente seria a primeira vez. Dia 18/03/01, de manhã, Danilo me ajudou a passar aspirador na casa, enquanto eu preparava o almoço (pois nesta época estava sem empregada). Após o almoço, ele me disse: “...assim que a sra estiver pronta para sair me avise que estou à sua disposição”. Sentou-se diante da sua tv, gostava de assistir televisão, se não estivesse vendo TV  estaria com o som ligado com volume alto, as vezes eu precisava pedir para abaixar o som. Gostava muito das músicas do Renato Russo. “Que país é este?” Neste dia também ouviu e deixou o CD no aparelho sem ao menos guardar. Ao sair, percebi que ele se trajava com um bermudão, uma camiseta e tênis. Questionei: - “Danilo, você vai desse jeito? Não vai assistir ao karaokê? E ele me disse:  - “Não, mãe, vou deixar para a próxima, pois sei que não faltará oportunidade, hoje vou encontrar com os amigos que ainda não os encontrei desde 07/12/00”. Deixando-me no local do evento, disse que se o pai não viesse me buscar, que ele me buscaria. Sempre foi muito atencioso e preocupado conosco. Participei, mas foi diferente de sempre, subi ao palco, mas não ouvia o retorno da minha música, solicitei ao sonoplasta que elevasse o volume, mas a palpitação era tanta que parecia me sufocar. As minhas amigas perceberam e me perguntaram preocupadas o que havia acontecido, o porque de eu estava tão tensa, mas não soube explicar, pois não saberia dizer o que havia acontecido, apenas aconteceu algo diferente, que nunca me ocorrera... algo me sufocava. Meu esposo veio me buscar e voltamos sem esperar o resultado, pois tinha certeza de que não havia me classificado. Voltamos cedo, pois fazia mais de três meses que não jantávamos os cinco juntos. Quando cheguei, o Danilo me disse: “... e aí, mãe, cadê, o troféu”.  Ele sempre esperava a minha classificação e me incentivava. Todos juntos, os cinco, jantamos e conversamos até as 23:00 horas. Segunda-feira, dia 19/03/01, todos saíram e o Danilo, saiu de carro neste dia, pois levava os mantimentos da semana, me deu aquele abraço de sempre, acenou feliz, dizendo: “ até sexta, mãe”.

 

Quando o mundo desabou...

 

Dia 22/03/01, quinta-feira, às 21:00horas, Danilo me telefonou preocupado dizendo que se precisasse do carro traria de volta naquela noite, pois voltaria somente no domingo, porque estaria na Santa Casa de Suzano, de plantão auxiliando o médico titular, onde teria o horário de sexta à noite, saindo somente no domingo de manhã. Eu, simplesmente, fiquei preocupada pela distância, pois se trouxesse o carro, Danilo estaria chegando aproximadamente 24:00 horas e no dia seguinte precisaria estar na faculdade às 8:00 horas. Seria muito corre-corre e disse que ficasse como estava, conversamos muito pouco, pois no domingo poderíamos conversar mais e não falei da minha 3ª classificação do concurso de karaokê, se tivesse contado, com certeza, teria ficado feliz.

 

Às 22:50 horas, toca o telefone. Achei que fosse trote, atendi e do outro lado da linha uma voz de mulher, perguntando se era a casa do Danilo. Confirmei, mas disse que ele não se encontrava e ela sabedora disso, falou que a amiga dele falaria comigo. Que horror! Se pudesse apagar, se pudesse eliminar estes dois dias, 22 e 23/03/01... do calendário, da minha memória, se pudesse fazer alguma coisa, com certeza faria de tudo para apagar totalmente, mas... infelizmente... do outro lado da linha : “...sou a namorada do amigo do Danilo (não me recordo o nome dela),  quero pedir à senhora que venha até Mogi, no Hospital Luzia de Mello, onde o Danilo está sendo atendido, pois ele foi envolvido numa confusão e o hospital está necessitando de alguns dados dele”. Neste exato momento, o mundo desabou, não sentia os pés no chão. Saímos voando, meu marido e eu, deixando em casa o meu caçula de dezesseis anos dormindo. Não o avisamos, pois achamos que poderíamos voltar logo, apesar de coração a mil, apertado, pois um rapaz de 23 anos precisar da presença do pai e ou da mãe? Era sinal de algo grave, mas a esperança é a última que se apaga. Antes de pegar a estrada, liguei para meu irmão médico que reside em Mogi e também para meu compadre, padrinho do Danilo, médico, Dr. Oswaldo, também residente em Mogi, para que eles fossem até o hospital antes de nós, pois levaríamos no mínimo 40 minutos, em alta velocidade.

 

Rezamos, pedimos a Deus pela sua proteção e força, e para que não fosse nada grave. Parecia tão longe, a estrada parecia interminável. Chegamos, saltei do carro. Corri em direção à entrada do hospital. Vi o meu irmão, de avental branco, com os passos pesados à minha direção, ele me disse o que não queria ouvir ou ninguém está preparado para ouvir:  - “... minha irmã, seja forte, o estado dele é gravíssimo, somente um milagre, mas... é muito difícil, seja forte...” corri em disparada, adentrei no pátio do hospital, vi os amigos do Danilo, todos chorando abraçados. Eles vieram falar comigo: - “... tia, vai dar tudo certo, tenha fé, O Danilo vai sair dessa..” abracei-os, agradeci a força. cheguei no balcão do atendimento, lá encontrei dois policiais que vieram falar comigo, eu acho que fui até um pouco grosseira, pois não quis ouvir muito e falei: - “ ..e aí, os bandidos? Prenderam, por que tudo isso? O que aconteceu? Eu, naquele momento não queria saber de outra coisa, queria saber como estava meu filho e se prenderam os culpados.

 

Danilo estava no centro cirúrgico e enquanto aguardava telefonei para minha irmã, de São Paulo, pedindo para falar com o meu filho mais velho que ficara na casa dela durante a semana, pois ficava mais próximo ao local do trabalho e a faculdade, porque havia deixado o caçula em casa. Rezei, rezei, rezei. Mas infelizmente nada foi possível. Os médicos vieram falar conosco, pediram desculpas por não ter conseguido salvá-lo. O que uma mãe poderia fazer ou dizer? Agradeci e pedi que deixasse vê-lo. Disseram que não podiam permitir, pois ele será encaminhado para o IML. “Não, não pode ser, ele é meu filho, eu quero vê-lo, vou ficar aqui até me deixarem”. Logo depois me chamaram para um corredor.. Oh! Aquela maca, coberta de lençol azul e saber de que embaixo daquele pano azul estava o meu Danilo! Apoiamos um a outro, meu marido e eu fomos juntos para a maca, levantamos o lençol. Lá estava ele, corpo inerte, mas ainda tinha aquele calor, não estava gélido, com aquele rosto tão lindo, sereno e com um sorrisinho, parecia acordar e me dizer: “.. oi, mãe, tudo bem?” parecia que levantaria e me abraçaria. Ah!... Como gostaria de que tudo acontecesse, como eu queria.....O dia raiou, fui até a minha casa buscar o terno, camisa social, gravata, meia e sapato. Tudo que ele menos usava, traje social somente quando o ambiente assim o exigisse, somente nas ocasiões especiais, pois sempre foi muito simples, quanto mais simples para ele era melhor, nada de luxo. Muitos amigos, professores, alguns colegas do Danilo que eu não conhecia vieram se despedir. Estiveram presentes mais de 700 pessoas, as quais não pude agradecer pelo carinho e abraços que nos fortaleceram muito naquele momento da dor da perda de um filho, enterrar um filho? Que é isso? Como pode ? Fiquei anestesiada, parecia um pesadelo profundo que quando despertasse, voltaria tudo normal. O último adeus, o último instante onde como mãe, teria meu filho nos braços. Antes de fechar para sempre, onde jamais poderia vê-lo e tocá-lo, dei o meu último beijo e selamos o nosso adeus e prometendo até o nosso reencontro (existe?).

 

E agora?

 

O serviço funeral foi executado e os amigos e nós, os familiares, ficamos no local, oramos e nos despedimos dele na certeza de reencontro no outro plano celestial, um dia ... Às 18 horas, o céu estava lindo, o por do sol maravilhoso, com certeza foi o prenúncio de uma nova vida, aquela chuva que ameaçara desabar, no entanto o céu estava azul límpido. Saímos abraçados, pois caminhar sozinha, deixando o Danilo para trás seria inaceitável e pensar de que a partir daquele momento jamais o teria ao nosso lado? É terrível, é incompreensível, não há dor pior do que ver um filho morto, enterrar um filho, como pode? A maior dor deste mundo é ver um filho morto. Domingo, como ele havia prometido que voltaria, acordei com a sensação de que hoje seria um novo dia, que o Danilo entraria por aquela porta, dizendo... “oi, mãe, cheguei ...” e me abraçaria, mas este domingo jamais chegou e nem chegará...E agora? O que será de nós? Senti-me culpada por não ter dito para ele voltar naquela noite, do dia 22/03/01. Por que não fiz? Se tivesse feito, talvez nada tivesse acontecido. E quando ouvia as pessoas dizerem que: “só Deus para salvar, pois rezo todos os dias para que Deus proteja os meus filhos”. E, então, eu me questionava: “Por que aconteceu tudo isso? Por que faltou a minha fé? Por que não rezei pedindo a Deus essa proteção? Mas eu sempre o fiz, então por que Deus me abandonou? Foi um castigo de Deus? Nessas horas, até cheguei a duvidar da existência de Deus e sua proteção. Perdão pela fraqueza, mas a dor é tanta onde buscamos uma resposta e não a encontramos. Dia 26/03/01, segunda-feira, às 9:00 horas, fui à sala e ao aproximar do aparelho de som, de repente, começa a tocar a música de Renato Russo, “ Que país é este?” Ao ouvir  fiquei paralisada, pois foi a última música que ele havia ouvido no dia 18/03/01, domingo. Isto me marcou muito, não sei como, mas sem tocar no aparelho de som, a música “ que país é este?”  Soa na sala como o Danilo estivesse ali me dizendo: “mãe, que país é este?

 

Missa de sétimo dia, passeata nas ruas da cidade de Mogi das Cruzes. Entrei na igreja, Catedral de Santana, Mogi das Cruzes. Que ironia! Há 27 anos, 07/07/73 estava eu casando e dia 29/03/01, estava naquela mesma Catedral celebrando a missa de sétimo dia do falecimento do meu filho. A dor se misturou com as promessas seladas diante de Deus. Após a missa, na semana seguinte fui à busca de justiça. Não poderia deixar cair no esquecimento, sendo considerado apenas um número na estatística da criminalidade. Não aceitando esta situação iniciei a minha peregrinação: delegacia de polícia, fórum, imprensas, onde pudesse chegar e gritar à busca de justiça, vestindo a camiseta estampada com a foto do Danilo, com dizeres “ CHEGA DE IMPUNIDADE”, Não seja a próxima vítima. Diga não à violência” e assim fui às ruas coletando os abaixo-assinados contra esta impunidade, solicitando aos legisladores mais rigor na legislação penal, fim dos benefícios concedidos aos criminosos, prisão perpétua com trabalho aos criminosos.

 

Durante todo esse período, nos sonhos, tive muitos encontros com meu filho Danilo, conversamos muito, muitas visitas recebi nas datas especiais, estes sonhos me fortaleceram e fortalecem muito nessa luta contra a impunidade e violência. Nessa caminhada fui encontrando mais e mais familiares que perderam seus entes queridos, vítimas dessa violência que assola o nosso Brasil. Tive muitas dificuldades, enfrentei muitos problemas, ameaças sofridas, mudamos de residência duas vezes para poder continuar nessa luta. Não pude passar o endereço e telefone às pessoas, até aos amigos, como se eu fosse a criminosa. Que situação!!! Inversão de valores!!. E assim senti a necessidade de formar um grupo, onde cada um pudesse falar da sua dor, sendo o ombro e os ouvidos dos pais necessitados para desabafar a sua dor, desabar as lágrimas. Chorar, por que não? O homem não chora?  

 

Hoje, passado alguns anos a saudade é imensa. Aprendi a conviver com essa falta irreparável, nada pode trazê-lo de volta ao nosso lar.  Somente esperar o momento do nosso reencontro no plano celestial, enquanto isso não acontece, pois tenho certeza que a minha missão não foi concluída, a luta continua. O sonho do Danilo era salvar vidas, como ele não pôde realizar seus sonhos, tenho certeza que esta missão foi passada para mim. Acredito que no plano celestial ele está exercendo a sua função salvando as “outras vidas”. Assim, estamos lutando para que as outras famílias não sejam as próximas vítimas, que elas não sejam mutiladas e fundamos o nosso MVJP – Movimento das Vítimas da Violência pela Justiça e Paz, onde as pessoas que estão buscando apoio emocional e judicial, também os demais que não sofreram violência fatal nas famílias (graças a Deus), mas cientes de que têm que lutar para que não sejam as próximas vítimas, pois são sabedoras que a violência não escolhe a classe social, a crença, enfim, não deixar que a violência bata a sua porta, abraçando a bandeira pela justiça e paz.

 

A ironia do destino, eu buscando a justiça e paz, por acreditar que sem a justiça não há paz em lugar nenhum e até a presente data nada de julgamento para um dos autores. Digo um dos autores porque foram dois, um ex-presidiário, que fez disparos com duas armas nas mãos, foi preso depois de 01 ano e 08 meses, ficando preso apenas  uns 03 meses e posto em liberdade graças a Habbeas Corpus. E o segundo? Nunca foi preso, continua foragido à espera da sentença. Benefícios que sempre favorecem “os inconseqüentes”, “Habbeas Corpus” palavra mágica. Desde então os dois aguardavam o julgamento em liberdade, porém o autor do disparo morreu quando o carro que dirigia despencou de uma ponte à altura de 8m, segundo o atestado de óbito que consta no processo, o outro continua em liberdade aguardando o julgamento que um dia poderá acontecer. Quando? Só a lei dirá, pois ainda restam alguns anos para prescrever, até lá nossa família continua aguardando, mesmo ciente que a impunidade é a bola mestra deste índice de crescimento da criminalidade neste país. Até quando? A pergunta que todos os cidadãos de bem fazem e a resposta, apenas......?????

 

Tempo

 

O tempo é o amigo de todos, pois tudo se resolve tempo a tempo, mas para nós, os familiares que sofreram essa perda, perda irreparável, nada deste mundo faz com que se resolva ou que possa ajudar a preencher essa lacuna que estes inconseqüentes provocaram. O tempo será apenas mais um para ter certeza de que jamais recuperaremos o tempo perdido, que a dor se instala para sempre e nos acompanhará para sempre até a eternidade. Falamos, sorrimos, aparentemente tudo parece normal, mas no íntimo o coração sangra, é uma ferida que dói, é uma ferida que não tem forma, cor, só a profundidade, somente quem foi vítima sabe como é a extensão dessa dor, a dor para a qual não há cura, não há antídoto para esse mal que teremos de carregar para sempre. O motivo da nossa luta contra a impunidade e criminalidade é justamente para que as outras pessoas, outros familiares não sejam as próximas vítimas, que não passem pelo mesmo sofrimento nosso. Nada neste mundo é pior do que ver um(a) filho(a) inerte, gélido(a), sabendo que jamais teremos de volta, que jamais ouviremos sua voz, que jamais sentiremos o calor dos seus abraços... Que viveremos o resto das nossas vidas na lembrança. É terrível!! Ninguém merece a vida se transformar em nada, sem futuro. Onde ficou aquele sonho que todos os pais traçam ao nascimento de um(a) filho(a)? Hoje, se resumi em mil perguntas: os porquês, os ses e serás... como seria hoje... Por que teve que ser assim? Se estivesse conosco, hoje seria um bom médico, realizando os seus sonhos de salvar a vida....Será que estaria, hoje, casado? O casamento..., deveria ser um lindo noivo, aquela felicidade estampada no seu rosto, (fecho os olhos e vejo a imagem dele sorrindo...) Poderia estar com um filho, um neto para nós... Como seria bom! Como seria tudo diferente! E por que teve que ser este desfecho? Por que? São as perguntas que ficaram sempre sem respostas. Perguntas sem respostas é a outra coisa pior que existe na vida de um ser humano, pois tudo que se pergunta, ou dúvidas há sempre uma resposta e soluções, mas este nosso caso é sem respostas e sem soluções, tudo se resumiu em “SEM”...

 

Gostaria muito de agradecer citando nominalmente aos meus pais, (meu pai falecido em 07/12/2003), meus sogros, meus irmãos, cunhados, sobrinhos, todos os parentes, professores, amigos e mais amigos da família e amigos  do  “Danilo” da infância, dos cursinhos e da faculdade, que nos apoiaram nos momentos difíceis, na hora do último adeus e que até hoje nos acompanham, nos apóiam sem medir esforços, por falta de espaço registro o nosso muito “OBRIGADO” de coração. Todos vocês estão registrados no nosso livro e gravados nos nossos corações com carinho especial que jamais esqueceremos de todos vocês....A nossa eterna gratidão.

 

A nossa luta continua!

Nosso lema: “ NÓS DEVEMOS SER A MUDANÇA QUE DESEJAMOS VER NO MUNDO.” (Gandhi)

A mudança depende dos esforços de cada um de nós.

“OS GIRASSÓIS BUSCAM OS RAIOS SOLARES E NÓS BUSCAMOS A JUSTIÇA E PAZ.” Pois acreditamos que sem a JUSTIÇA não há PAZ em lugar nenhum. Que cada um faça essa diferença para um mundo melhor. Seja você, um girassol, semeie, cultive e colha a Justiça e a Paz.

 

          CHEGA DE IMPUNIDADE!

     NÃO SEJA A PRÓXIMA VÍTIMA.

           DIGA NÃO À VIOLÊNCIA.

         

          

 Sou mil ventos

 

Não chore diante do meu túmulo

Eu não estou ali

Dormindo eternamente.

Nos mil ventos, sou mil ventos

Voando naquele imenso céu.

No outono, sou um brilho

Que agita a planície.

No inverno, sou uma roda de neve brilhante.

Ao amanhecer, sou um pássaro

Que desperta você.

À noite, sou as estrelas

Que lhe protegem.

Não chore diante do meu túmulo

Eu não estou ali

Não morri.

Nos mil ventos, sou mil ventos

Voando naquele imenso céu

 

( Tradução de uma música japonesa)

Texto escrito pela mãe do Danilo Sra Fumiyo

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